segunda-feira, 25 de julho de 2016

São Gonçalo dominada

O morador de São Gonçalo sente que a cidade não lhe pertence mais. O crescimento gradual da violência, com súbitos golpes de crueldade, atingiu seu ápice: facções criminosas decidem a rotina de bairros inteiros. Rebatizadas pela ação de bandidos, as regiões afetadas se transformaram em imensos complexos de tráfico de drogas e medo. Anaia, Amendoeira, Miriambi e Vila Três, apenas alguns exemplos, deixaram de existir. São agora aglutinações de assaltos, tiroteios e barricadas chamadas de Complexo do Anaia, Complexo da Alma e Complexo de Miriambi. Juntaram-se ao famoso Complexo do Salgueiro em um movimento onde o terror ganha terreno e o cidadão perde o chão onde pisa. Os dados do Instituto de Segurança Pública sobre São Gonçalo são alarmantes. No primeiro trimestre deste ano o número de roubos a pedestres aumentou 43% em relação ao mesmo período do ano passado. Entre dez tipos de crime analisados, oito ocorreram mais vezes, entre eles homicídio doloso e furto de veículos. A força do fuzil na porta de casa impede o trabalho e o lazer. Ruas onde os jovens tradicionalmente jogavam vôlei e futebol estão desertas. O morador, homem ou mulher, sai de casa cedo para sustentar a família e não sabe se chegará à primeira esquina sem o trauma de um assalto ou violência pior. No retorno à noite, cansado, a mesma incerteza desesperadora. Se estiver de carro cumpre a ordem de ligar o pisca-alerta, ainda que viva no mesmo lugar há anos. O que diz a maior autoridade pública municipal sobre a crise na segurança? Nem uma palavra. A opinião do prefeito Neilton Mulim sobre a escalada da violência é desconhecida, como se ele morasse em outra cidade ou não compartilhasse dos sofrimentos do povo. O projeto Rua Nova, menina dos olhos do prefeito, foi interrompido por semanas aguardando autorização do tráfico para continuar. Hoje há ruas asfaltadas recentemente bloqueadas com manilhas, sofás e pedaços de concreto. Trágica ironia. O gonçalense se livra da lama, do esgoto e do buraco e em seguida é aprisionado dentro de casa por bandidos. São eles os novos donos do território.


Por MÁRIO LIMA JR.

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segunda-feira, 18 de julho de 2016

A democracia gonçalense vista de Alcântara

A menos de 90 dias das eleições municipais, o que mais incomoda em Alcântara, importante polo comercial de São Gonçalo, não são os conhecidos problemas do bairro. Incomoda perceber, vendo as antigas deficiências que se estendem pela cidade inteira, que os gonçalenses ainda não participam plenamente da escolha e exercício do governo municipal. Alcântara é o ponto perfeito de observação do povo. Graças à fartura de lojas, serviços e oportunidades, gente dos cinco distritos se mistura diariamente entre a Rua da Feira, o Calçadão e o entorno do viaduto da RJ-104. Há pessoas indo e vindo, comprando e vendendo, falando e comendo, sempre com pressa, nunca parando. As lixeiras transbordam lá mais do que em qualquer outro lugar. Atropelamentos são frequentes na disputa insana entre veículos e pedestres, a lama dos vazamentos de esgoto compõe a paisagem natural, os pontos de ônibus geralmente estão lotados. E o gonçalense circulando em Alcântara não pode refletir por um instante sobre o abandono. As decisões políticas do Executivo são tomadas à revelia da população, ocupada com o comer e o vestir. A imprensa diária de maior alcance, subordinada aos mandos (e ao dinheiro) do Governo, ignora o impacto dessas decisões no cotidiano quando deveria alimentar a opinião pública com jornalismo de qualidade, pilar central da democracia. Nas sessões ordinárias da Câmara os vereadores protegem seu “curral” dos inimigos, não raro outros vereadores em atividade, e legislam baseados no mais vantajoso para a manutenção do poder em vez de estimularem o debate político. O voto obrigatório segue orientações impróprias, como a popularidade do candidato dentro na comunidade, de acordo com o tamanho do investimento na campanha eleitoral. O conhecimento exato sobre as atividades do prefeito e dos vereadores está restrito a poucos indivíduos. Entre o cidadão e a figura política o distanciamento é tão grande que há pessoas morando sem reclamar em ruas sem asfalto e às escuras porque veem o prefeito como entidade poderosa que tudo sabe e pode castigar. Transformam respeito em precaução, a precaução vira medo pois desconhecem que têm o poder nas mãos. Os recursos de infraestrutura, transporte e promoção da dignidade humana são geridos em São Gonçalo como se nela vivesse 100 mil pessoas, embora abrigue mais de 1 milhão. Não há tanques nas ruas, mas a falta de informação, cultura e educação se encarrega da restrição da liberdade democrática como em poucas cidades brasileiras.


Por MÁRIO LIMA JR.

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terça-feira, 12 de julho de 2016

Enganações do prefeito Mulim

A Prefeitura de São Gonçalo me entregou em casa uma revista com as “realizações” do governo Mulim desde 2013. Criada com dinheiro do povo, a publicação tem 8 belas folhas de enganações e foi distribuída após o dia 02/07/2016, data a partir da qual a Justiça Eleitoral proibiu a divulgação de atos, obras e serviços públicos para garantir igualdade de oportunidades entre candidatos (Lei nº 9.504/1997). Além de mentiroso, Neilton Mulim confirma a fama de prefeito criminoso. Fiquei confuso ao folhear a revista contendo 74 reformas, criações e projetos. Pensei que estivesse louco, vários questionamentos me dominaram: Mulim é um bom prefeito e sou incapaz de ver? Ele trabalhou fielmente durante os últimos três anos e meio mas falhou ao transmitir seus feitos? Olhei a revista com um pouco mais de atenção e entendi seu verdadeiro intuito: disfarçar uma péssima gestão. Mais enfeitada que pavão, a revista não apresenta indicadores de programas de governo porque este governo nunca teve programa. Ela mostra uma métrica insuficiente, referente à Educação, apenas um índice entre 74 itens. Que raio de governo é esse que constrói café social e clínica mas não diz o quanto a cidade se desenvolveu em números socioeconômicos? Quais projetos foram concebidos, realizados e tiveram o objetivo alcançado? Com R$ 1 bilhão e 200 milhões anuais (orçamento do governo) meu filho de 5 anos – ele quer ser prefeito e bombeiro – construiria bastante coisa em parceria com empreiteiras corruptas sem planejar o funcionamento e manutenção posterior. Ajudar o cidadão a aumentar seu nível de educação e renda exige maturidade e competência que meu filho ainda não tem. Nem o prefeito. Sendo que o primeiro ainda está no maternal. Será que Mulim pensa que a população seria incapaz de entender gráficos de receita e despesa mostrando a saúde financeira da Prefeitura ou teme revelar seus podres? As crianças estão lendo mais após o programa Magia de Ler, que custou R$ 12 milhões sem licitação? Agora escrevem melhor? Não em Alcântara, Raul Veiga e Vila Três, bairros que frequento. Talvez no seu bairro leitor; por favor, nos diga. Grande parte das realizações não estão realizadas. Exatamente. Mulim subverte o Português Brasileiro. São obras atrasadíssimas, como a da Policlínica de Alcântara. Outra realização, uma merda de aplicativo chamado Saúde.com que, se foi feito de graça, saiu caro. Não traz nada além de um plágio grotesco do Google Maps, provavelmente usando o próprio serviço da Google, sem inovação, inútil. Uma ofensa contra brilhantes mentes gonçalenses que desenvolvem na capital do Estado os principais aplicativos do mercado do Rio de Janeiro. O folheto não revela, obviamente, que São Gonçalo é uma cidade às escuras onde se leva seis meses para trocar a lâmpada queimada de um poste. Não diz que ultimamente os porcos se recusam a circular em Alcântara, maior bairro comercial da cidade, tamanha sujeira e desordem; que o cidadão é um refém do descaso por não contar com um canal eficiente de comunicação com a Prefeitura, que há obras com 100% de financiamento federal, de iniciativa federal, mas que Mulim conta como suas, além de financiamentos desperdiçados, como o projeto CEUs. Faltam seis meses para o governo Mulim acabar. Tempo demais para cruzar os braços e viver na escuridão.


Por MÁRIO LIMA JR.

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quarta-feira, 6 de julho de 2016

O sofrimento dos desabrigados

Foto: Marcos Vieira/Página Gonçalense Sabemos que o governo Mulim trouxe para São Gonçalo mais lixo, escuridão, corrupção e mentira. No conforto de nossas casas, entretanto, não percebemos o quanto ele é desumano. As famílias desabrigadas pelas chuvas de março sabem. Elas sentem, na carne, o tamanho da omissão do prefeito e dos cavaleiros da hipocrisia (ou secretários de governo). Centenas de pessoas perderam suas casas, seus móveis e pertences há três meses, quando 38 bairros da cidade foram alagados. Desesperadas, crianças, idosos e doentes crônicos inclusive buscaram abrigo em dois condomínios desabitados do programa “Minha Casa, Minha Vida” no Jóquei. Permaneceram no local sem água encanada nem energia elétrica por quase dois meses, se alimentando através de doações, sem qualquer assistência médica ou social do governo municipal. Expulsas dos apartamentos por ordem judicial, sob a condição de que a Prefeitura forneceria abrigo apropriado, cerca de 400 pessoas, segundo os desabrigados, foram transferidas para o CIEP Porto do Rosa. Os documentos e objetos que conseguiram juntar após o alagamento foram jogados num caminhão para a transferência e jamais vistos novamente. Algo impensável, abominável e o sofrimento aumentaria: localizado em região tomada pelo tráfico de drogas, encontraram o CIEP crivado de balas, sem janelas e com vazamentos na cisterna. Dormindo sobre o chão frio, entre eles 20 portadores de necessidades especiais, muitos adoeceram. Após 30 dias vivendo precariamente no CIEP Porto do Rosa, mês passado sofreram a segunda remoção à força. Desta vez os desabrigados foram espalhados entre o Polo de Assistência Social de Vista Alegre e igrejas que ofereceram ajuda. Alguns homens dormiram na calçada por falta de espaço para todos. As crianças, longe da escola desde março, incapazes de entender o motivo de tantas mudanças, perguntam aos pais quando voltarão para casa. “É uma situação de guerra”, nas palavras de um desabrigado. E não temos um governo interessado em resolver a questão. Publicamente a Prefeitura tem a audácia de dizer que existem “desalojados, não desabrigados”. Faz joguinhos de marketing com as vidas de centenas de pessoas, desrespeitadas enquanto seres humanos. Estão sem água e comida e convivendo com a sujeira porque a máquina pública foi empregada em ações ilegais de propaganda, como faixas penduradas em postes de luz e muretas, visando as próximas eleições. Gonçalenses perderam tudo o que possuíam e continuam sofrendo. E a grande preocupação do governo Mulim é com a própria imagem.

Por MÁRIO LIMA JR.

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