sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O medo da violência

O comandante do 7º Batalhão da Polícia Militar, coronel Fernando Salema, pediu calma e prudência à população de São Gonçalo através de vídeo divulgado pela Internet semana passada. Louvável a atitude do coronel, que demonstrou preocupação e se aproximou de um povo historicamente ignorado pelas autoridades. No entanto, é impossível ter calma morando em uma cidade onde até a creche, que existe ao lado do batalhão que ele comanda, encerra o expediente mais cedo como medida preventiva contra a violência.

Não são os boatos que tememos, são os fatos. Os altos índices de violência da cidade superam os números dos demais municípios do estado do Rio de Janeiro. Assaltos a pedestres e roubos de carros são frequentes, a qualquer hora do dia ou da noite. Casas e lojas são invadidas. Há relatos de estupro de mulheres abordadas caminhando em bairros populosos, como Alcântara. Aqui, vereadores e juízes que fazem seu trabalho com honestidade são assassinados. Como o cidadão comum não teria medo? Provavelmente você já foi vítima de algum tipo de violência ou conhece alguém que tenha sido.

Onde a presença do estado é maior, como nos bairros nobres de Niterói e do Rio de Janeiro, boatos de represálias não se propagam, o comércio não para no meio do expediente. Nenhum comerciante fecharia seu estabelecimento, causando prejuízos a si mesmo, se a ameaça que vem do tráfico não fosse real. Ninguém se trancaria em casa com medo se não tivesse certeza de que está vulnerável nas ruas.

Acredito no coronel quando diz que a polícia se esforça no combate ao crime e recentemente o efetivo policial de São Gonçalo foi aumentado para 780 integrantes. Mas, ironicamente, quando o cidadão vai à delegacia fazer boletim de ocorrência depois de ser assaltado, a polícia o orienta a não usar jóias, relógios ou roupas caras que despertem o interesse de bandidos. Significa, no mínimo, que o trabalho da polícia e seu efetivo ainda são insuficientes.


Por MÁRIO LIMA JR.

Visite o site



sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Não temos metrô nem barca porque sofremos calados

Ainda não construíram a Linha 3 do metrô e a estação das barcas em São Gonçalo porque nós, gonçalenses, somos majoritariamente pobres sem instrução que não lutam por seus direitos. A culpa é nossa, não dos governos.

Somos animais adestrados, passivos. Por isso a Linha 4 do metrô, ligando Ipanema à Barra da Tijuca, está sendo construída desde 2010, enquanto a construção da Linha 3 é prometida há décadas e ainda não foi nem licitada. É fácil dizer o que difere a população da Barra da Tijuca da população de São Gonçalo: rico forma opinião, reclama, enquanto pobre sofre calado. Não fomos capazes de exigir a coisa mais natural, que o 3 viesse antes do 4, enquanto eles conseguiram subverter as leis matemáticas.

Também graças à nossa apatia, a estação das barcas em Charitas foi inaugurada em 2010, enquanto a construção da estação gonçalense não é nem discutida, apesar de constar do contrato de exploração do serviço de transporte hidroviário. De acordo com este contrato, a estação de São Gonçalo deveria estar em funcionamento desde o ano 2000. E o que difere a população das duas cidades, Niterói e São Gonçalo? Os niteroienses são mais exigentes (além de estudarem por mais tempo e ganharem três vezes mais). Como os emergentes da Barra, ricos e instruídos não aceitam ser enganados.

São Gonçalo é o segundo maior colégio eleitoral do estado do Rio de Janeiro e já passou da hora de aproveitar isto a seu favor. Gasta-se facilmente mais de uma hora no trânsito para circular pela área urbana da cidade, suportando congestionamentos enormes, calor nos ônibus sem ar-condicionado, motoristas imprudentes e poluição. Vivemos, calmamente, desprovidos de transporte público de qualidade, um direito constitucional.

Não teremos barcas nem metrô enquanto não exigirmos, em massa, que os mesmos sejam construídos.


Por MÁRIO LIMA JR.

Visite o site



sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Governo maltrata a arte municipal

Entre os dias 10 e 30 de setembro de 2014, foram expostas no shopping Pátio Alcântara belíssimas obras de artistas plásticos gonçalenses. Ver a cidade com os olhos da arte, quando estamos habituados ao caos, revigora. A forma como essas obras são mantidas fora da exposição, no entanto, é revoltante.

O evento teria mais importância se fosse realizado em local aberto (como na extinta praça Carlos Gianelli, se a mesma não tivesse sido vendida), mas a iniciativa em homenagem ao aniversário de 124 anos de São Gonçalo, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, permitiu que os frequentadores do shopping apreciassem diferentes ângulos da cidade. Os problemas começaram depois que gostei tanto de um dos quadros que decidi tentar comprá-lo. A partir deste instante, testemunhei estarrecido o quanto a arte gonçalense é maltratada.

Ainda empolgado, resolvi buscar mais informações sobre a obra, talvez conhecer a artista que a pintou. Mas no local não havia site ou telefone dos responsáveis pela exposição, e esta foi minha primeira reclamação.

Dois dias depois, através do site da Prefeitura, achei o telefone e liguei para a Secretaria de Cultura. Disseram que o acervo pertencia à Casa das Artes Villa Real e que eu deveria entrar em contato com a mesma. Liguei imediatamente para a Casa das Artes e, apesar de muito bem atendido, não recebi nenhuma informação porque o Superintendente não estava presente. Minha segunda reclamação: informações de interesse público devem estar disponíveis, não podem “pertencer” a alguém. Fui orientado pelo atendente a ligar na semana seguinte.

Em vez de ligar, estive na Casa das Artes no dia e horário indicado, falei com o Superintendente e novamente fui bem atendido, mas ele também não pôde me ajudar. Procurou com empenho nas diversas gavetas e pastas avulsas pelo contato da Mônica Fonseca, artista que pintou o quadro que mais gostei, mas nada encontrou. Terceira reclamação: a Casa das Artes Villa Real não tem um catálogo organizado das obras que expõe, muito menos um cadastro simples dos artistas da cidade.

Uma semana após o fim da exposição, retornei à Villa Real na esperança de pelo menos rever o quadro. Mas não acreditei quando vi as obras, antes expostas no shopping, agora amontoadas em um depósito, coladas e danificando umas às outras, empilhadas de qualquer maneira junto com cadeiras e outros objetos que poderiam rasgá-las facilmente. As artes plásticas gonçalenses, que retratam as belezas naturais e o povo da cidade, são tratadas como entulho pelo governo municipal, que é responsável pela Casa das Artes Villa Real. Quarta reclamação.

Destaco que os funcionários muito se esforçaram para me atender, mas mesmo sem os recursos necessários que o governo não fornece, poderiam tratar a arte da cidade com mais cuidado.


Por MÁRIO LIMA JR.

Visite o site



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Perfil do povo gonçalense

De acordo com os dados do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil 2013, o povo gonçalense é jovem, pobre e sem instrução. Com tristeza acrescento ainda, a partir da minha observação e da opinião de pessoas que vivem há anos em São Gonçalo, que somos mal educados e desleixados.

A faixa etária mais frequente na cidade, em ambos os sexos, oscila entre 30 e 34 anos de idade; nada anormal, pois em média a população brasileira é jovem. Contudo, São Gonçalo apresenta números inaceitáveis referentes a renda e educação: mais da metade da população cursou no máximo o ensino fundamental e a renda per capita é ligeiramente superior ao salário mínimo, insuficiente para o sustento digno.

Sabemos que o Brasil é um país economicamente desigual e que carece de investimentos na área de educação. Mas, em muitos municípios do país, pobreza e falta de instrução não impedem a prática do respeito entre seus moradores e o zelo para com o patrimônio da cidade. Em São Gonçalo, no entanto, o povo tem o vergonhoso hábito de jogar lixo na rua. Fumantes lançam o cigarro aceso no chão, crianças jogam papel de bala onde querem, adolescentes depositam o copo vazio de guaraná natural nos canteiros ou ao lado dos postes (como se postes fossem lixeiras), adultos compram salgado e refresco na lanchonete e depois jogam o guardanapo e o copo em qualquer lugar, e até os casais, depois de apaixonadamente tomarem um milkshake, jogam o copo vazio no meio-fio, entre a rua e a calçada, numa péssima demonstração de cumplicidade e ignorância.

Não à toa, a falta de educação (diferente da baixa escolaridade) é a característica do povo gonçalense mais citada pelos próprios habitantes da cidade. Mas, apesar de poucos, há quem veja qualidades no povo como honestidade, solidariedade e responsabilidade em relação ao trabalho. E as dificuldades impostas pela vida na cidade, como precariedade dos serviços públicos, falta de mobilidade urbana e desemprego nos obrigam a desenvolver outras qualidades para sobreviver, como resiliência e criatividade.

Se popularmente a principal característica do carioca é o estilo de vida despojado, praiano, a do paulista é a grande dedicação ao trabalho e a do gonçalense é a falta de educação, não podemos simplesmente nos conformar, rir desta imagem negativa e dizer “gonçalense é tudo favelado” ou “só podia ser de São Gonçalo”. Transforme seus hábitos ruins, invista em suas qualidades e oriente familiares e amigos a fazer o mesmo.


Por MÁRIO LIMA JR.

Visite o site