Geralmente escrevo apenas um artigo por semana sobre São Gonçalo, mas o renascimento da Fazenda Colubandê fez a cidade merecer um artigo extra. A Fazenda estava linda no último fim de semana. Quem não foi, perdeu.
Criada pelo novo prefeito, a linha de ônibus circular que liga a Fazenda aos noventa e um bairros oficiais facilitou o acesso ao local. A passagem custa R$ 1, preço de custo. A família gonçalense compareceu em peso: casais heterossexuais e gays, com e sem filhos; jovens, idosos, crianças, todos se divertiram.
Mais famosa novidade gastronômica nacional, os food trucks foram espalhados pelos quatro cantos da Fazenda, do portão de entrada até o entorno da pista de atletismo. Dispostos desta forma os pequenos caminhões e bicicletas equipadas com baú incentivaram a circulação geral, diferentemente do evento semelhante que ocorreu na praça Zé Garoto em junho, área consideravelmente menor.
O sol forte e o céu limpo tornaram o domingo memorável. Reluzindo, pintada e de grama aparada, a Fazenda Colubandê deixava o céu e o sol ainda mais belos, não o contrário. O brilho da alegria no ar ofuscava. Nem de longe lembrava aquele imóvel decadente onde vândalos urinavam, defecavam e largavam camisinhas usadas. O melhor ponto turístico gonçalense precisava de um pouco de respeito, carinho e atenção, nenhuma reforma profunda foi necessária.
Enquanto apreciavam seu lanche preferido sentados à sombra num dos característicos banquinhos de madeira rústica, os pais deixavam os filhos aos cuidados dos monitores para um passeio pelo complexo com direito à aula de História. O circuito incluía o orquidário, espaços de convivência, a capela, a sede e seu subsolo, onde no passado existiu uma senzala.
Como fazem há anos, o Recicla Leitores distribuiu livros de graça. Um charme a mais ver obras literárias espalhadas no chão, em vez de copos plásticos, e dezenas de crianças empolgadas em volta, ao pé da palmeira gigante.
São Gonçalo num imenso piquenique, tantas eram as toalhas espalhadas pela grama verde. Crianças desciam as rampas de bicicleta e patinete, adolescentes conduziam patins. A pista de atletismo transbordava de corredores. Os times de basquete e vôlei aguardavam em fila sua vez de jogar diante das quadras lotadas.
Treze grupos musicais do município se apresentaram ao lado da capela. Depois das quadras, próximo à cantina, havia silêncio suficiente para conversar ou namorar.
Comi um hambúrguer gigantesco tomando chopp artesanal sentado embaixo de uma árvore. Meu filho brincava com dois novos amigos que tinham levado linha e pipa pra soltar. No final da tarde, suado e cansado, quase pulei na piscina mas a reformaram exclusivamente para as crianças, grande injustiça. Na Fazenda Colubandê restaurada falta somente uma piscina para adultos.
Por MÁRIO LIMA JR.
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Informe São Gonçalo
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quarta-feira, 31 de agosto de 2016
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
Candidatura de Mulim é sinal de sadismo
Neilton Mulim, prefeito de São Gonçalo, se candidatou à reeleição. Nas fotos da campanha, iniciada dia 16, ele sorri de forma cínica, doentia, como alguém que não dá importância ao prejuízo que ele mesmo causou à cidade. É a pior das loucuras, puro sadismo.
Para entender a candidatura de Mulim é preciso recorrer à Psicologia. Ele não tem nada para oferecer à São Gonçalo, financeiramente quebrada por seu governo e permanentemente suja, e ainda propõe como vice-prefeita um ser inerte, que não pisca, quase uma múmia egípcia.
A biografia de Mulim descarta a loucura vulgar, inconsequente. Ex-vereador gonçalense, duas vezes deputado federal, o prefeito premeditou cada passo de sua vida, inclusive a fábula da passagem a R$ 1,50 que rendeu seu mandato atual. Tudo leva a crer que São Gonçalo está nas mãos de um sádico que sente prazer ao provocar e assistir ao sofrimento do povo.
Quando centenas foram desabrigados pelas chuvas de março, e uma pessoa morreu, Mulim manteve a frieza. Na entrevista ao Balanço Geral da TV Record, raro pronunciamento público do prefeito “sumido”, ele não tinha tristeza ou comoção na voz. Surpreendentemente seu fracasso em impedir tragédias que se repetem anualmente não o deprimiu, como se não tivesse qualquer responsabilidade.
Pressionado pelo apresentador do programa, a preocupação era “tirar o seu da reta”, proteger a imagem política. Nenhuma palavra de compaixão ou atitude sincera que amenizasse a dor das pessoas que perderam todos os seus bens.
Com Neilton Mulim no poder, São Gonçalo nunca teve um prefeito de verdade. Alguém que a colocasse na posição que merece no cenário político nacional. A Linha 3 do metrô foi descartada na cara de pau e uma barricada gigantesca dividiu a cidade em duas. Saiu de graça, ficou por isso mesmo, ninguém grita. Representar 1 milhão de pessoas vivendo uma crise generalizada despertaria uma pessoa normal para o cumprimento do dever.
Neilton não está cansado, ele quer mais, foi agradável para ele até agora. Parece que acabou de chegar de férias da Europa. Cada servidor público municipal não aguenta mais sofrer em suas mãos, do guarda municipal ao professor. As condições de trabalho e o salário são indignos, beiram a tortura.
Seu governo polui o município como ninguém. Tem o hábito de pendurar faixas irregulares nos postes de luz, estendidas de um lado a outro da rua, para se promover. Depois deixa a faixa por meses no mesmo lugar. Que gestão medíocre, meu Deus, que falta de zelo e orgulho. Vem de lá, da Prefeitura, toda pobreza de espírito e mesquinharia que respiramos.
A tentativa de reeleição de Mulim visa conduzir esta cidade incipiente de 125 anos ao último inferno, onde São Gonçalo será algemada ao pé da cama e espancada a noite toda.
Por MÁRIO LIMA JR.
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quarta-feira, 24 de agosto de 2016
Como nasce um mau vereador
Genésio Barros mora em São Gonçalo e viu que o salário de vereador é bom, R$ 15 mil limpinhos. Decidiu ser vereador também. As atribuições do cargo não lhe preocupam, ele não as conhece. É urgente saber como chegar lá, como se tornar vereador da cidade.
Genésio percebe as necessidades do povo do seu bairro, ruas de barro esburacadas, vizinhos que vivem um inferno a cada enchente, perdem móveis, se desesperam. Ele se acha iluminado, pode mudar aquela realidade triste, de repente passou a não admiti-la surpreendendo até ele. Além disso, o salário, ah, o salário de vereador é tão bom.
Foi camelô em Alcântara, entregou panfletos no Centro, não concluiu o Ensino Médio; Genésio é bastante popular, faz amigos no futebol aos domingos, naturalmente sempre simpático.
Agora promove churrascos e festas de rua com frequência, diz às pessoas que está brigando por elas. Vai à Prefeitura, tenta se aliar às forças políticas atuais ressaltando que é bem conhecido pela população, sua maior qualidade. Num lampejo de genialidade, cria um perfil no Facebook (parte da estratégia de campanha) onde sua personalidade tão comum será ainda mais conhecida. Genésio é o benfeitor escolhido por Deus, especial ao mesmo tempo humilde, quase tanto quanto Jesus Cristo.
Os inúmeros erros de português nas publicações online não são o maior problema, definitivamente não. Se pelo menos Genésio postasse sobre as verdadeiras atribuições do vereador, legislar em benefício do povo e fiscalizar o Executivo, seria ótimo, ainda com gafes como nomes de rua trocados nas legendas de fotografias e citações de bairros em que nunca esteve.
Genésio planta a mentira que trouxe melhorias de infraestrutura antes mesmo de ser eleito – imagine o que fará quando estiver na Câmara -, é batalhador e nem tem o trabalho de dizer que é honesto, isto é óbvio, a honestidade está no sorriso dele.
Nas conversas com simpatizantes desenvolve um estilo de falar novo, pensa que fazer política marcante é colocar drama na voz, uma fala ridiculamente arrastada, cantada em tom fúnebre.
É oficial, com um aperto de mão efusivo Genésio Barros conta para todos que é candidato, pede voto descaradamente. E pode realizar o sonho de ser vereador, tudo de acordo com a legislação eleitoral.
Por MÁRIO LIMA JR.
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segunda-feira, 15 de agosto de 2016
Barricada
É avassalador o nascimento de uma barricada. Como se fosse uma força da natureza incontrolável. De repente, numa noite qualquer, ela surge e nenhum bairro de São Gonçalo está livre.
Sua gestação é tão sutil quanto o desenvolvimento da violência urbana. Ela cresce lentamente por baixo do solo por dias, até meses, as notícias de assaltos e assassinatos se acumulam, nos acostumamos a elas, o tempo passa, o tiro come, homens armados circulam cada vez mais cedo, à luz do dia. São os componentes da seiva que a nutre secretamente até que irrompe do solo uma barricada dura como a realidade sofrida ocupando toda a rua.
Na manhã seguinte, espanto geral. No caminho até a padaria, as pessoas reduzem o passo perto dela e observam. Quando voltam para casa, pão embaixo do braço, olham a barricada e se espantam de novo, não podem evitar a surpresa. Há vergonha em seus olhos. Aquilo é a materialização do fracasso do Estado e da Sociedade do Rio de Janeiro.
Os alunos do Ensino Fundamental em direção à escola e o trabalhador que sai de casa pela primeira vez após o nascimento da barricada se perguntam: “como algo tão grande foi parar aqui, sem eu ter visto nada?”. No fundo todos sentiam o aumento da criminalidade ao redor. Os jovens do Ensino Médio sorriem diante dela, inconsequentes naturais atraídos pela sensualidade da violência sem sangue.
Ruas como a Dr. Feliciano Sodré, onde fica a Prefeitura, ainda estão livres porque não reúnem o silêncio, o solo e o medo necessário para uma barricada perfeita.
Os dias passam, pessoas e veículos também e a barricada permanece onde nasceu. Não é preciso vigiá-la como a um bebê. Alguns motoristas em direção à própria garagem a deslocam não mais que o suficiente pro carro atravessar, com o pisca-alerta ligado até durante o dia, e rapidamente, mas com carinho, reacomodam o objeto sagrado.
O poder da barricada é tremendo, ela divide São Gonçalo. Do gigantesco lado depois dela, o terror. Ele mantém sofás, geladeiras, armários e manilhas de concreto na posição exata em que surgiram. No lado anterior vemos a cidade um pouco mais estruturada, parte reduzida do território que se ajusta a cada perda de terreno e sobrevive.
Por MÁRIO LIMA JR.
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terça-feira, 9 de agosto de 2016
Uma tocha por dia
A cinco meses do término do seu governo, graças à passagem da Chama Olímpica, a “tocha” do prefeito de São Gonçalo, Neilton Mulim, enfim acendeu. Explico: o município se movimentou como nunca antes nesta gestão, varreu, pintou e asfaltou com velocidade para receber o símbolo que percorreu 329 cidades brasileiras.
Boa parte do povo gonçalense não gostou desta demonstração tardia de virilidade do prefeito. Pudor ofendido, quiseram apagar a tocha, olímpica, esperando reduzir o fogo dele. A Chama, na verdade, poderia ter vindo bem antes e mantido o pacato governo Mulim ativo todos os dias.
A eficiência da organização surpreendeu, foi chamada de “maquiagem” para esconder os problemas de São Gonçalo. Aprovando e discordando, como deve ser numa democracia, o protagonismo assumido pela população presente, estimada em 100 mil pessoas pela Prefeitura, é outro aspecto que tornou o dia dois de agosto especial.
Havia dois tipos de pessoas em Alcântara, ponto de partida da tocha oficial: aqueles que reprovavam aos gritos o evento e os estupefatos. Quem insistia em aprovar era insignificante, pequenos comentários isolados.
Os manifestantes jogaram bolinhas de água nos capacetes negro-foscos da Polícia Militar, que respondeu com bombas de efeito moral, teve empurra-empurra e desespero de crianças e pais (os primeiros a não ver a Chama). Impossível sentir o espírito olímpico acuado pela multidão e por deficiências graves na Saúde, Educação, Infraestrutura, Transporte etc.
Quando o povo sai às ruas em uma cidade definhando sob um governo ruim, o choque entre as forças de segurança e enormes grupos de protesto é inevitável. Felizmente ninguém se feriu gravemente e tivemos aprendizados.
O prefeito Mulim aprendeu a não subestimar o povo. Colocar a Tocha Olímpica para desfilar em um dos trechos mais estreitos e populosos da cidade foi ingenuidade. Os gerentes das lojas de Alcântara aprenderam que centenas de pessoas aglomeradas na frente do estabelecimento nem sempre é positivo e fecharam as portas por medo de roubos e vandalismo.
Aos trancos e barrancos, literalmente, a Tocha e a Chama passaram mobilizando o gonçalense e o poder público ineficiente que queria fazer uma festa para o povão irritado. Encontro valioso para São Gonçalo.
Por MÁRIO LIMA JR.
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segunda-feira, 1 de agosto de 2016
O camelô mais famoso da cidade
Marcelo me acorda pontualmente às 06:20 de segunda a sábado. Assoviando alto, ele desce o morro da Caixa D’água de bicicleta carregando panos pra vender no sinal de trânsito da rua Tiago Cardoso, em Alcântara. Enquanto partidos e personalidades políticas se empurram como crianças na fila do bolo por um pedaço de São Gonçalo nas eleições deste ano, no meio do povo sobram exemplos de luta digna por sobrevivência.
A vida agitada do camelô mais famoso da cidade não caberia aqui. Melhor dizer logo o que Marcelo tem a ensinar: coragem, irreverência e disciplina. Ele trabalha como vendedor ambulante desde os 12 anos, quando fugiu de casa após ser espancado pelo pai, alcoólatra, que o obrigava a roubar de feiras e supermercados. Mesmo sofrendo outras crueldades, como dormir na rua ainda criança, Marcelo carregou consigo o sonho de cantar rap.
Também conhecido pelo bordão “Fala Jow”, usado ostensivamente para cumprimentar os amigos, Marcelo, 47 anos, é aquela figura divertida que alguns bairros têm. Seus improvisos conquistam o cliente que chega a Alcântara pela RJ-104, marcaram minha adolescência no Vila Três e foram apresentados profissionalmente em programas de TV e rádio até do Ceará. Entre as parcerias famosas, cantou com DJ Marlboro em Botafogo (RJ) e MC Bira, com quem compôs o rap “Chega de mãe chorar”.
O período que viveu na rua, até os 17 anos, não foi fácil. “Vida de massacre”, diz. Vadiava e roubava. Esteve internado por 6 meses na Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM). Estudou até o 5º ano do Ensino Fundamental.
Exposto ao escapamento dos veículos, apesar da chuva ou do sol, Marcelo diz “bom-dia” de forma bem-humorada a cada motorista que para no seu ponto em frente a praça Chico Mendes e ao viaduto. Já vendeu ali biscoito, bala e água de coco, mas hoje vende pano de chão e flanela, “produto que não estraga”, e ajuda no controle do trânsito com seus gestos e assovios ágeis, de um lado para o outro.
Perguntei se dava para pagar as contas da família – esposa, filho e enteado – como camelô. MC Marcelo Fala Jow abriu a carteira na hora e não resisti: contei mais de R$ 200.
Por MÁRIO LIMA JR.
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segunda-feira, 25 de julho de 2016
São Gonçalo dominada
O morador de São Gonçalo sente que a cidade não lhe pertence mais. O crescimento gradual da violência, com súbitos golpes de crueldade, atingiu seu ápice: facções criminosas decidem a rotina de bairros inteiros. Rebatizadas pela ação de bandidos, as regiões afetadas se transformaram em imensos complexos de tráfico de drogas e medo.
Anaia, Amendoeira, Miriambi e Vila Três, apenas alguns exemplos, deixaram de existir. São agora aglutinações de assaltos, tiroteios e barricadas chamadas de Complexo do Anaia, Complexo da Alma e Complexo de Miriambi. Juntaram-se ao famoso Complexo do Salgueiro em um movimento onde o terror ganha terreno e o cidadão perde o chão onde pisa.
Os dados do Instituto de Segurança Pública sobre São Gonçalo são alarmantes. No primeiro trimestre deste ano o número de roubos a pedestres aumentou 43% em relação ao mesmo período do ano passado. Entre dez tipos de crime analisados, oito ocorreram mais vezes, entre eles homicídio doloso e furto de veículos.
A força do fuzil na porta de casa impede o trabalho e o lazer. Ruas onde os jovens tradicionalmente jogavam vôlei e futebol estão desertas. O morador, homem ou mulher, sai de casa cedo para sustentar a família e não sabe se chegará à primeira esquina sem o trauma de um assalto ou violência pior. No retorno à noite, cansado, a mesma incerteza desesperadora. Se estiver de carro cumpre a ordem de ligar o pisca-alerta, ainda que viva no mesmo lugar há anos.
O que diz a maior autoridade pública municipal sobre a crise na segurança? Nem uma palavra. A opinião do prefeito Neilton Mulim sobre a escalada da violência é desconhecida, como se ele morasse em outra cidade ou não compartilhasse dos sofrimentos do povo.
O projeto Rua Nova, menina dos olhos do prefeito, foi interrompido por semanas aguardando autorização do tráfico para continuar. Hoje há ruas asfaltadas recentemente bloqueadas com manilhas, sofás e pedaços de concreto. Trágica ironia. O gonçalense se livra da lama, do esgoto e do buraco e em seguida é aprisionado dentro de casa por bandidos. São eles os novos donos do território.
Por MÁRIO LIMA JR.
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